50 anos da primeira história do livro “Visagens e Assombrações de Belém" será comemorado na capital

Quer saber como “pegar” uma Matinta Perera? Ou em quais bairros de Belém mais foram registradas aparições de visagens e assombrações mesmo com a chegada do progresso? É fácil, basta ler as histórias do livro “Visagens e Assombrações de Belém”, do escritor Walcyr Monteiro, a principal referência literária quando se fala no universo sobrenatural que cerca a cidade das Mangueiras. E este universo, que começou a ser documentado no dia 7 de maio de 1972, no jornal A Província do Pará, completa 50 anos em 2022.

Uma reunião especial vai marcar a data no próximo dia 6 de maio, a partir das 18h, no Centro de Cultura e Turismo Sesc Ver-o-Peso, para homenagear o escritor, falecido em 2019, e seu legado. E as comemorações seguirão no período de 11 a 13 do mesmo mês, na Casa das Artes, da Fundação Cultural do Pará, com direito a uma “Feira de Livros Assombrosos”, exposição e debates com escritores, entre outras atividades.

Segundo escreveu o próprio Walcyr na apresentação de seu livro, a publicação das narrativas, recolhidas da cultura oral da população amazônica, iniciaram com o objetivo de preservar esse traço cultural, que estava fadado ao desaparecimento. “A aceitação por parte do público foi muito grande, o que se pôde constatar pelas cartas recebidas, quer estimulando, quer com a narração de novos casos, quer finalmente sugerindo a reunião das histórias em livro”.

E foi o que ele fez, transformou a série publicada no jornal em um livro, que em 1986 finalmente ganhou forma, ainda segundo Walcyr, graças ao apoio do então secretário de Estado de Cultura, Desportos e Turismo na época, o também escritor e cineasta Acyr Castro. O livro fez tanto sucesso que a primeira edição esgotou rapidamente, assim como as demais.



EDITORA

Quando Walcyr faleceu o livro já estava na sétima edição. E ele se preparava para lançar o “Visagens e Assombrações de Belém Vol. 2” com histórias inéditas. Missão que cabe agora a seu filho e curador de sua obra, Átila Monteiro. Para isso, ele fundou a editora que leva o nome do escritor e tem como projeto publicar não só o “Visagens e Assombrações de Belém”, como também as demais obras do escritor, assim como outros trabalhos que ficaram inéditos. “A continuidade dessa produção vai depender muito da edição e circulação dos novos livros. A gente pretende vencer a falta de patrocínio e de incentivo para a adoção por alguma escola, alguma entidade cultural dessas obras, que é uma coisa que meu pai já vinha lutando há muito tempo”, afirma Átila Monteiro.

“Ao comemorar os 50 anos dessas histórias não temos somente como objetivo lembrar Walcyr Monteiro, mas também reafirmar a importância da literatura paraense e congregar aqueles que acreditam na força da leitura para criar um mundo melhor. A expectativa é que a gente possa unir várias gerações de leitores para continuar esse movimento, mais 50, mais 100 anos”, completa.

Walcyr Monteiro ampliou o universo de suas pesquisas para os outros estados da Amazônia e até fora do País, com a série de revistas “Visagens, Assombrações e Encantamentos da Amazônia” e lançou, ainda, “As incríveis histórias do caboclo do Pará”; “Contos de Natal” e “Amazônia: histórias e Lendas”, edição em português e alemã, entre outros livros.


Feira de Livros Assombrosos na Casa das Artes apresenta legado do escritor

As comemorações do “Ano Walcyr Monteiro” não vão se encerrar no dia 6 de maio. Na semana seguinte, a Casa das Artes, espaço da Fundação Cultural do Pará (FCP), receberá os fãs da obra de Walcyr Monteiro para mais três dias de programação. Segundo o diretor do espaço, o escritor Alfredo Garcia, além da exposição das obras, exibição dos filmes baseados nas lendas e assombrações registradas por Walcyr Monteiro, haverá também uma Feira de Livros Assombrosos, como o próprio nome já diz, só com obras com essa temática.

“A ideia é que a gente atinja um público jovem, que está nos anos finais do ensino fundamental e no primeiro ano do Ensino Médio, uma turma de 11 a 15 anos. Pra isso vamos ter sessões diárias de vídeos sobre o escritor ou baseados na obra dele, de manhã e de tarde. Por exemplo, o curta ‘A moça do Táxi’, e ‘Visagem’, uma das primeiras animações em stop motion feitas no Pará etc...”, revela Alfredo Garcia, diretor da Casa das Artes.

“Também vamos fazer um painel com os escritores paraenses de como a obra do Walcyr influenciou na carreira ou na formação deles, como Juraci Siqueira, Joécio Jojoca, Paulo Maéus, entre outros. Vai ter visita guiada, apresentação de vídeos e bate papo dos autores com os alunos das escolas públicas do entorno da Casa das Artes, como Ulisses Guimarães e Deodoro de Mendonça”, completa.

Um dos convidados confirmados é o escritor Juraci Siqueira, “O Boto”, como é conhecido no meio literário. Ele vai conversar com o público e apresentar seus livros na Feira da Casa das Artes. Contos não propriamente sobre assombrações, mas sobre mitos amazônicos como o Boto, a Mãe D'água, a Curupira, a Boiúna e a Matinta Perera.

Assim como Walcyr, Juraci sofre com a falta de apoio e defende a adoção dos livros regionais nas escolas públicas. “Quando trabalhei no Sistema Estadual de Bibliotecas Escolares, uni forças com a coordenadora do órgão, Sônia Santos e a Secretária Adjunta de Ensino, Socorro Brasil e conseguimos, pela primeira e única vez, adquirir livros de 32 escritores paraenses. Nas gestões de Edmilson Rodrigues e Duciomar Costa, o Sistema Municipal de Bibliotecas Escolares adquiriu, em pequenas quantidades, livros de autores paraenses, o que não aconteceu na gestão de Zenaldo Coutinho. Agora há promessa de aquisição de livros de autores paraenses tanto pelo município quanto pelo Estado. Bora rezar que aconteça”, afirma.

A Casa das Artes também está programando, para a semana de 18 a 22 de maio, uma oficina de quadrinhos, chamada literatura de HQ, com o professor Volney Nazareno. Especialista no assunto, Volney já tem produções com adaptações de clássicos da literatura para os quadrinhos, com nomes como Lindanor Celina e Eneida de Moraes.

“A importância de Walcyr para a literatura amazônica é igual a importância dos irmãos Grimm para a Alemanha. A coleta de textos, a pesquisa antropológica tem uma importância que deveria ter sido reconhecida nacionalmente. Em todas as faixas etárias, todas as classes sociais não há ninguém que não tenha ouvido falar, e isso num país que não lê, numa terra que não tem memória e que não incentiva os seus autores regionais. Então essa é a importância do evento”.

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