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“Barrigada: Negritude em Cena, Quilombo em Diálogo” é atração no Teatro Waldemar Henrique


Depois de uma intensa circulação por comunidades quilombolas do Pará, o projeto

“Barrigada: Negritude em Cena, Quilombo em Diálogo” realiza, em fevereiro, sua última

apresentação em Belém, marcando o encerramento de um ciclo iniciado em setembro de

2025. O espetáculo chega ao palco do Teatro Waldemar Henrique no próximo fim de

semana, com apresentações nos dias 7 e 8 de fevereiro, em Belém. Com entrada

gratuita, a montagem convida o público a vivenciar uma experiência cênica que dialoga

com narrativas negras amazônicas por meio do teatro, da formação e do diálogo

comunitário.



Idealizado pelo artista de teatro Ysmaille Ferreira, o projeto foi premiado pela Lei

Aldir Blanc – PNAB 005/2025 (Fomento à Circulação de Projetos Culturais), com

patrocínio da Casa de Estudos Germânicos da UFPA, e colocou no centro da cena as

vozes e experiências de mulheres negras quilombolas do Pará, articulando criação

artística e ação pedagógica.

Ao longo da circulação, o projeto passou pelas comunidades quilombolas de

Pitimandeua, Canta Galo e Pirucaua, além da capital Belém, promovendo

apresentações teatrais, oficinas e rodas de conversa. As ações buscaram fortalecer a

expressão artística local, estimular o pensamento crítico e valorizar as memórias, saberes e

formas de organização das comunidades quilombolas.



“Nunca imaginei que um dia estaria contando a história do nosso quilombo, e fazer

parte desse projeto está sendo uma honra e um desafio ao mesmo tempo. Foi incrível

poder compartilhar a arte e a cultura quilombola com comunidades que têm uma

história tão rica e profunda”, declara a atriz Gisele Lopes, de 17 anos, uma das artistas

do espetáculo. Ela completa: “As comunidades nos receberam com muito carinho, e é

muito lindo ver o empenho e a união de todos. É gratificante saber que o público vai

estar vendo uma peça teatral pela primeira vez.”

O projeto também marca a estreia de Gisele como atriz. Para ela, a importância de

apresentar o espetáculo no próprio território quilombola foi fundamental para criar um

espaço de pertencimento e valorização das raízes e da cultura quilombola.

“Não só senti, como pude ver a reação dessas pessoas. Escutar suas falas e assistir

suas histórias sendo contadas publicamente é realmente um momento de muita

emoção. O mais lindo de ver é o brilho nos olhos. Minha vó se emocionou ao ver sua

história sendo contada; não só ela, mas todas essas mulheres puderam ver o quanto

são guerreiras e, hoje, terem orgulho de dizer: ‘essa é a minha história!’”



Um dos diferenciais do projeto é a forma como o teatro se integra às práticas

culturais dos territórios. As atividades cênicas têm início com jogos de bingo, tradição

presente nas festividades religiosas e encontros comunitários, estabelecendo um diálogo

direto entre a linguagem teatral e as expressões culturais quilombolas. A cena, nesse

contexto, se transforma em espaço de encontro, escuta, memória e celebração.

Os espetáculos acontecem nos intervalos dos jogos, criando um ambiente de

partilha e interação entre artistas e comunidade. Durante o evento, haverá venda de

cartelas de bingo para a plateia, e toda a renda arrecadada será destinada à construção

do barracão comunitário de Pirucaua, reforçando o compromisso do projeto com o

fortalecimento da infraestrutura coletiva do território. A participação no bingo é opcional,

preservando o caráter livre, acessível e acolhedor das atividades.



O encerramento da circulação em Belém marca não apenas o fim de uma

temporada, mas a consolidação de um processo construído em diálogo direto com os

territórios, reafirmando o teatro como ferramenta de educação popular, afirmação cultural e

mobilização comunitária. Nesta apresentação final, o público também poderá conferir os

registros fotograficos de Neilton Moraes, que acompanhou as apresentações realizadas

nos quilombos, ampliando a memória e o alcance desse percurso artístico e político.

O nome do projeto, Barrigada, nasceu de uma roda de conversa em que dona Benedita, uma das

lideranças quilombolas, compartilhou suas memórias. Naquele momento, ao mencionar “teve uma

barrigada aí”, ela se referia ao nascimento de pessoas da comunidade. A palavra, carregada de

significados, dialoga tanto com a ideia de gravidez e nascimento quanto com resistência e saberes

populares, como a prática tradicional de “puxar a barriga” para auxiliar mulheres no parto, uma

crença enraizada na região. Mais do que um título, Barrigada simboliza o surgimento de novas

histórias, de novos olhares e experiências que o projeto busca proporcionar, especialmente para

aqueles que terão contato pela primeira vez com o teatro em um formato mais profissional.

Dirigida por Ysmaille Ferreira e Mar Oliveira, a encenação é conduzida pelas atrizes Aline Lopes

e Gisele Lopes, jovens negras da própria comunidade, que transformam o palco em um espaço

de pertencimento e força coletiva. A trama se passa durante a festividade de Nossa Senhora de

Fátima no quilombo Pirucaua, quando duas apresentadoras conduzem a plateia por um enredo

que entrelaça sorteios, leilões e memórias vivas das mulheres da comunidade, incluindo as

"puxadeiras de barriga", figuras tradicionais que cuidam da gestação com rezas e saberes

populares.

Outro espetáculo que integra o projeto é "Maiô Imaculado", um solo de Ysmaille Ferreira, com

direção colaborativa de Paulo Marat, inspirado na vida de sua avó, Oscarina Ferreira Lopes,

mulher negra amazônida que enfrentou racismo, pobreza e invisibilidade. O espetáculo

compartilha memórias da escravidão doméstica e rural no Pará, abordando a ancestralidade a

partir de experiências cotidianas.A obra narra uma trajetória marcada pela religiosidade, pelo

afeto e pela luta pela sobrevivência no interior da Amazônia. Oscarina se alfabetizou na velhice

e cultivou o hábito de contar causos para familiares e amigos, histórias que resistem ao

esquecimento e fortalecem a memória coletiva negra.O enredo se constrói em torno de um

objeto simbólico: um maiô, que representa a delicadeza e a força de uma vida marcada pela

resistência


SERVIÇO


Projeto: Barrigada: Negritude em Cena, Quilombo em Diálogo

Local: Teatro Waldemar Henrique Avenida Presidente Vargas, 645 – Campina

Entrada: Gratuita

Programação: 07 de fevereiro de 2026 (sábado) • Abertura da exposição: 18h • Espetáculos teatrais: a partir das 19h

08 de fevereiro de 2026 (domingo) • Abertura da exposição: 8h30 • Espetáculos teatrais: a partir das 9h30

Acessibilidade: Espetáculos de teatro com intérpretes de Libras no sábado.

Fotos: Neilton Moraes 

 
 
 

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