CAIXA Cultural Belém recebe espetáculo inspirado na obra do escritor e líder indígena Ailton Krenak
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A CAIXA Cultural Belém recebe, nos dias 17, 18, 20 e 21, o espetáculo Ideias para adiar o fim do mundo, inspirado nas obras do escritor e líder indígena Ailton Krenak. A montagem aborda temas como a formação do Brasil, os impactos da colonização e os desafios enfrentados pelos povos indígenas, propondo diferentes formas de compreender a relação entre humanidade e natureza.
Idealizado pelo diretor e dramaturgo João Bernardo Caldeira, o espetáculo nasceu do desejo de transformar em linguagem cênica algumas das reflexões propostas por Krenak. A pesquisa ganhou forma a partir do encontro com o ator indígena Yumo Apurinã, que passou a integrar também a construção dramatúrgica da montagem.

Para João Bernardo Caldeira, a temporada na capital paraense amplia o diálogo proposto pela obra de Krenak. “Trazer o espetáculo para a Amazônia tem um significado especial porque muitas das questões presentes na obra de Krenak atravessam diretamente este território. Ao colocar diferentes cosmologias em diálogo, a peça convida o público a reflorestar os imaginários com que pensamos o Brasil, abrindo espaço para outras narrativas sobre a nossa história e outras possibilidades de futuro.”
Em cena, Yumo interpreta a si próprio: um homem do povo Apurinã que, evangelizado na infância, tenta reconstruir sua relação com a ancestralidade. Nascido em Rondônia e morador da região Sudeste, o ator leva ao palco experiências marcadas pelos deslocamentos entre diferentes mundos e pelos estereótipos que ainda recaem sobre os povos indígenas no Brasil contemporâneo.
“Sou constantemente colocado à prova. Meu corpo não corresponde ao ‘índio’ do imaginário da cidade, mas também não me encaixo em outras classificações. Ainda assim, sei quem sou: um Pupỹkary Apurinã. O pertencimento é o que me orienta. Sei de onde vim, onde estou e penso meu futuro a partir disso”, afirma Yumo.
Muitos mundos silenciados:
A peça conduz o público por uma reflexão sobre os processos históricos que moldaram a formação do Brasil e determinaram quais vidas, saberes e modos de existir seriam reconhecidos como parte daquilo que aprendemos a chamar de humanidade.
“A montagem sugere que talvez seja impossível imaginar futuros diferentes sem antes reelaborar as histórias que contamos sobre nós mesmos. Ao colocar em diálogo perspectivas historicamente marginalizadas pela colonização, ela amplia os imaginários a partir dos quais compreendemos o Brasil”, afirma o diretor João Bernardo Caldeira.
O espetáculo recupera episódios da história brasileira e dialoga com processos que ainda produzem efeitos no presente. Até a Constituição de 1988, por exemplo, os povos indígenas eram tutelados pelo Estado e considerados relativamente incapazes perante a legislação brasileira.
“Muitos mundos precisaram ser silenciados para que uma única narrativa sobre o Brasil se tornasse dominante. A peça procura aproximar o público de experiências, memórias e saberes que ajudam a compreender a complexidade da nossa formação histórica”, diz o diretor.
A reflexão também atravessa a relação entre conhecimento, território e imaginação. “A crise ambiental também é uma crise de imaginação. Reflorestar os imaginários é abrir caminho para outras narrativas sobre quem somos e sobre os futuros que podemos construir.”
Histórias para adiar o fim:
A temporada contará ainda com a atividade gratuita Histórias para adiar o fim, encontro entre Yumo Apurinã e a escritora, poeta, geógrafa e ativista indígena Márcia Kambeba, no dia 20 de junho, às 16h.
Nascida no Amazonas e radicada no Pará, Márcia é uma das principais vozes indígenas da literatura contemporânea brasileira. Sua produção aborda temas como território, ancestralidade, memória e identidade indígena.
O encontro propõe uma conversa sobre arte, literatura, produção de conhecimento e os caminhos abertos pelos povos indígenas para pensar o presente e o futuro do país.
Yumo Apurinã
Yumo Apurinã nasceu em Cacoal, interior de Rondônia, onde o povo Apurinã, original do Amazonas, firmou-se na Aldeia Mawanaty, do povo Cinta Larga, no município de Pimenta Bueno. Começou a fazer teatro no ensino médio, em Espigão D'Oeste, quando atuou e escreveu a peça "Myrunguêre e Nara", premiada no Festival Estudantil Rondoniense de Artes e apresentada em Porto Velho. Aos 19 anos, foi para o Rio de Janeiro sob o sonho de dedicar-se à carreira de ator. Nos últimos anos, formou-se como ator pela Casa das Artes de Laranjeiras e foi indicado duas vezes, em 2022 e 2023, ao Prêmio APTR de Ator Jovem Talento pelas peças "Por Detrás de O Balcão" e "O Balcão", ambas sob direção de Renato Carrera. Atuou ainda em "Karaíba" (2023), adaptação da obra de Daniel Munduruku, que circulou por todo o país. Em 2023, atuou em "Vôo Livre", da Companhia Brasileira de Teatro, direção de Márcio Abreu, e em "Guasu", dirigida por Vilma Melo. Escreveu e atuou nos solos "Os Meus Olhos" (2021) e "Tibira e a Mãe" (2020), com o qual ganhou o prêmio de Melhor Ator do FestiCAL Online. Entre seus últimos trabalhos estão ainda "Ricos de Amor 2" (2023), de Bruno Garotti; "O Turista Aprendiz" (2022), de Murilo Salles, além dos espetáculos "Krum" (2021) e "Tybyra, Uma Tragédia Yndygena Brasileira" (2021).
João Bernardo Caldeira
Doutor em Artes Cênicas pela ECA-USP, desenvolveu a pesquisa "Derrocada do sujeito universal e reflorestamento de existências: teatros de falas", que investiga a cena contemporânea a partir da emergência de corpos dissidentes. Pós-graduado em Gestão e Políticas Culturais pelo Itaú Cultural e pela Universidade de Girona, é mestre em Artes da Cena e graduado em Comunicação e Direção Teatral pela UFRJ. É autor, diretor, professor, produtor e pesquisador teatral, além de jornalista cultural. Idealizou e produziu a peça "Para Meu Amigo Branco", em 2023/24, com direção de Rodrigo França e inspirada no livro de Manoel Soares. Dirigiu, produziu e escreveu espetáculos como "Eu Quem Eu Somos", "Avenida Central" e "Atafona O Fim". Produziu e escreveu o espetáculo "Funk Brasil -- 40 Anos de Baile", entre outros. Desde 2008, é colaborador de cultura do jornal Valor Econômico.
Serviço:
[Teatro] Ideias para adiar o fim do mundo
Local: CAIXA Cultural Belém - Avenida Marechal Hermes, S/N - Armazém 6A - Reduto (Porto Futuro II)
Data: 17, 18, 20 e 21 de junho
Horários: quarta, quinta, sábado e domingo, às 19h, Domingo, sessão extra às 16h
Ingressos: R$ 30(inteira) e R$15 (meia)
Vendas: no site da CAIXA Cultural e também na bilheteria física, das 11h às 19h
Classificação indicativa: 12 anos
Obs.: Não haverá sessão no dia 19 de junho em razão do jogo da Seleção Brasileira de futebol na Copa do Mundo
Programação paralela:
Histórias para adiar o fim - Encontro entre Yumo Apurinã e Márcia Kambeba
Data: 20 de junho Horário: 16h Entrada gratuita
Classificação indicativa: 12 anos
Inscrições: Site da CAIXA Cultural
Informações: Site da CAIXA Cultural e Instagram @caixaculturalbelem Acesso para pessoas com deficiência















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