Cortejo Visagento chega à 8ª edição com alerta sobre a memória e a resistência do rio Tucunduba, em Belém (PA)
Quem tem medo do rio Tucunduba? No bairro do Guamá, em Belém, a pergunta ganha contornos de assombração, memória e denúncia socioambiental. No dia 31 de outubro, o Cortejo Visagento chega à sua 8ª edição convidando a população a refletir sobre a relação entre a cidade e seus rios. Com concentração às 18h, no Cemitério Santa Izabel, na avenida José Bonifácio, o evento transforma as ruas do bairro em espaço de celebração da cultura popular paraense e de defesa dos territórios amazônicos.

A provocação desta edição é direta: não é o rio que ameaça a cidade, é a cidade que ameaça o rio. Nascido rio, o Tucunduba foi caminho de barcos, pessoas e mercadorias vindas das ilhas, marcou a formação do território e integra a memória de quem cresceu às suas margens. Ao longo do tempo, porém, passou a receber lixo e esgoto, sofreu com aterramentos e intervenções urbanas e teve sua identidade frequentemente reduzida à de um canal. A edição de 2026 propõe inverter essa perspectiva e questionar o modelo de urbanização que transforma rios vivos em problemas a serem eliminados.
Mesmo após a realização da COP30 em Belém, as intervenções urbanas e as promessas de combate aos alagamentos seguem no centro do debate. Para quem vive nas margens do Tucunduba, a água que invade as casas continua sendo parte da realidade cotidiana. Nesse contexto, o cortejo chama a atenção para a necessidade de olhar para o rio não como vilão das enchentes, mas como parte de um ecossistema que também sofre as consequências da ocupação desordenada, da poluição e da retirada de seu espaço natural.

É nesse cenário que as visagens amazônicas voltam às ruas para assombrar quem trata o rio como esgoto e chama destruição de progresso. Mais do que uma celebração de histórias de assombração, o Cortejo Visagento transforma o imaginário popular em ferramenta de reflexão sobre o presente e o futuro do território. A mensagem é que o Tucunduba não é apenas um canal, uma vala ou uma ameaça: é rio, memória e parte da identidade de quem vive em Belém.
Cultura popular como resistência
Criado em 2016, o Cortejo Visagento nasceu da articulação entre diferentes iniciativas culturais do bairro, como as ruas de leitura, a valorização do patrimônio histórico e as atividades de contação de histórias. A proposta também surgiu como resposta à crescente presença do Halloween no calendário cultural, buscando fortalecer as narrativas amazônicas, as histórias de visagens e o folclore paraense entre os jovens, especialmente estudantes de escolas públicas do turno da noite.
A iniciativa é realizada pelo Espaço Cultural Nossa Biblioteca (ECNB) e foi ampliando seu alcance ao longo dos anos, incorporando a literatura, a oralidade, a memória das ruas e a valorização dos fazedores de cultura locais. O Cemitério Santa Isabel, ponto de partida do cortejo, também integra essa proposta de ressignificação dos espaços do bairro, reconhecendo o patrimônio como lugar de memória, história e vida.
Para Mineia Silva, presidente do Espaço Cultural Nossa Biblioteca, o encontro entre essas diferentes motivações foi fundamental para a construção do projeto.
“O Cortejo Visagento nasce a partir de múltiplas inspirações. Uma delas foi a vontade de fazer uma rua de leitura à noite; outra, uma reação à presença do Halloween, que estava se tornando mais importante do que a nossa própria mitologia. Queríamos fazer do evento uma forma de resistência da cultura popular amazônida e valorizar o patrimônio do bairro”, explica.
Segundo Mineia, a iniciativa também contribui para apresentar o Guamá a partir de outras perspectivas, valorizando suas histórias e suas expressões culturais. “Hoje nós estamos trabalhando isso como um instrumento para mostrar o Guamá com uma outra face, uma face diferente”, afirma.
Conversas e oficinas para criar novas visagens
A programação preparatória do Cortejo Visagento começa com a Conversa Visagenta, no dia 27 de outubro, às 17h, com Ariane Caldas. Cientista da religião pela Universidade do Estado do Pará (UEPA), neuropsicopedagoga, arte-educadora, mestra da cultura popular, atriz, cosplayer, performer, palhaça, cantora e contadora de histórias, Ariane articula educação, arte, memória, cultura popular e imaginário amazônico em suas práticas.
Atualmente, ela desenvolve uma pesquisa sobre os palacetes assombrados de Belém, investigando narrativas de assombração, lendas urbanas, relatos de experiências sobrenaturais e o imaginário que envolve as antigas edificações da capital paraense. Sua abordagem aproxima a Ciência da Religião, a tradição oral, a memória coletiva e o patrimônio histórico para compreender como o medo, o mistério e o sobrenatural atravessam a história e a identidade cultural da cidade.
Na quarta-feira, 28 de outubro, às 15h, o Espaço Cultural Nossa Biblioteca recebe as Oficinas Visagentas, que convidam o público a colocar a criatividade em prática e preparar suas próprias personagens para participar do cortejo.
Na oficina de máscaras com Uritã, a proposta é dar rosto — ou vários olhos — às visagens. Já a oficina de figurino com RomaRio e Lou convida os participantes a vestir suas assombrações dos pés à cabeça, explorando a criatividade e o reaproveitamento de materiais.
As atividades aproximam a comunidade dos processos de criação artística e fortalecem o caráter coletivo do evento. Mais do que acompanhar a manifestação cultural, os participantes são convidados a integrar o cortejo como parte ativa da celebração, levando às ruas suas próprias interpretações das visagens amazônicas.
Exposição, literatura e concurso de fantasias na Praça Benedito Monteiro
No dia 31 de outubro, a programação continua na Praça Benedito Monteiro, com exposição de trabalhos artísticos, livros à venda e o tradicional concurso de fantasias, que convida o público a celebrar a criatividade e o imaginário das assombrações.
Entre os trabalhos que integram a programação estão o livro de Xavier dos Passos, o Naipeado — Baralho Amazônico, produzido por artistas paraenses — e os livros de Preto Michel. A iniciativa amplia o espaço para a circulação da produção artística e literária local, aproximando artistas, escritores e público em um encontro dedicado às narrativas amazônicas.
A programação complementa a caminhada pelas ruas do Guamá, criando um espaço de convivência e valorização dos fazedores de cultura do território. Assim, o Cortejo Visagento reúne diferentes linguagens artísticas e formas de expressão popular, reafirmando que as histórias de visagens também são parte viva da identidade cultural paraense.
Das histórias de visagens à defesa dos rios
Nos últimos anos, o Cortejo Visagento também passou a incorporar questões ambientais às suas atividades, abordando temas como ilhas de calor, desmatamento, secas dos rios e piora da qualidade do ar. A aproximação com professores, estudantes da Universidade Federal do Pará (UFPA), movimentos sociais ligados à pauta climática e espaços culturais fortaleceu o diálogo entre as narrativas do território e os desafios socioambientais enfrentados pela população.
Nesta edição, a memória do Tucunduba orienta a reflexão sobre o direito à cidade e a relação entre as comunidades e os cursos d'água que atravessam Belém. A proposta é reconhecer que a história do rio não se separa da história de seus moradores: ela está presente nos caminhos, nas lembranças, nas formas de ocupação e nas experiências de quem convive diariamente com suas águas.
No dia 31 de outubro, o cortejo parte do Cemitério Santa Izabel e segue pelas ruas do Guamá, reunindo moradores, artistas e participantes em uma caminhada que transforma as narrativas de assombração em manifestação cultural e reflexão socioambiental. Durante o percurso, também será distribuído um material de pesquisa sobre as ruas por onde o cortejo passa, reunindo informações sobre a história local e questões ambientais. A iniciativa reforça o compromisso do projeto com a memória comunitária e com a circulação de conhecimentos produzidos a partir do próprio território.
Ao chegar à sua 8ª edição, o Cortejo Visagento reafirma a importância de preservar as narrativas amazônicas, fortalecer o sentimento de pertencimento e promover outras formas de enxergar o Guamá e a cidade. Neste 31 de outubro, as visagens não saem apenas para contar histórias do passado: elas também vêm lembrar que os rios têm memória, que os territórios têm voz e que cuidar da vida amazônica exige escutar quem vive às margens dela.
SERVIÇO
8ª edição do Cortejo Visagento — “Quem tem medo do rio Tucunduba?”
Conversa Visagenta com Ariane Caldas
Data: terça-feira, 27 de outubro de 2026
Horário: 17h
Local: Espaço Cultural Nossa Biblioteca — Travessa 25 de Junho, 214, Guamá, Belém (PA)
Oficinas Visagentas
Data: quarta-feira, 28 de outubro de 2026
Horário: 15h
Local: Espaço Cultural Nossa Biblioteca — Travessa 25 de Junho, 214, Guamá, Belém (PA)
Máscaras com Uritã: para dar rosto (ou vários olhos) à sua visagem.
Figurino com RomaRio e Lou: para vestir a assombração dos pés à cabeça, com criatividade e reaproveitamento de materiais.
Cortejo Visagento
Data: sábado, 31 de outubro de 2026
Horário: concentração às 18h
Concentração: Cemitério Santa Izabel — avenida José Bonifácio, bairro do Guamá, Belém (PA)
Programação complementar: exposição de trabalhos e livros à venda, além do tradicional concurso de fantasias, na Praça Benedito Monteiro


















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