IV Carimbó ACena Fest reúne 18 atrações e homenageia mestres da cultura popular em Belém
O som dos curimbós, as saias rodadas e os saberes de quem mantém viva uma das mais importantes expressões culturais do Pará vão ocupar Belém nos dias 17 e 18 de outubro. Em sua quarta edição, o Carimbó ACena Fest – Festival de Carimbó de Belém reúne 18 atrações, entre grupos musicais, companhias de dança e mestres da cultura popular, em uma programação gratuita que celebra a diversidade do carimbó e a trajetória de quem constrói essa tradição. Neste ano, os homenageados são a Mestra Jesus e o Mestre Zezinho Viana, ambos naturais de Cachoeira do Arari, na Ilha do Marajó. As apresentações começam às 15h, nos dois dias.

Realizado pelo Pontão de Cultura ACena, o festival chega à quarta edição com uma proposta que ultrapassa os palcos. Além da mostra musical, a iniciativa promove encontros entre gerações, atividades formativas e espaços de diálogo sobre os caminhos do carimbó, reconhecido como Patrimônio Cultural Imaterial do Brasil desde 2014.
Para Harles de Oliveira, produtor cultural e presidente do Pontão de Cultura ACena, a homenagem aos mestres é parte fundamental da construção do festival. "Além das mostras musicais, das oficinas de vivência de carimbó e das rodas de conversa, a gente costuma homenagear mestras e mestres do nosso segmento, que muito contribuíram", explica. Sobre a escolha da Mestra Jesus, ele destaca a satisfação de reconhecer uma artista cuja trajetória ultrapassa os limites do território marajoara e alcança diferentes espaços da cultura popular paraense.

A programação do primeiro dia, sábado (17), começa com uma roda de conversa entre os mestres homenageados, às 15h10. Às 16h, a Mestra Jesus recebe o reconhecimento e apresenta seu repertório ao público. Na sequência, sobem ao palco os grupos Tarubá, Uirapurú, Regional Os Curupiras, Bico de Arara, Regional Frutos do Pará, Coletivo Tamborimbó e Mururé.
No domingo (18), a homenagem será dedicada ao Mestre Zezinho Viana, que também fará uma apresentação musical, a partir das 15h. A mostra segue com os grupos Paranativo, Caboclas Morenas, Sancari, Cia Amazônica de Danças, Asa Branca, Parananin, Coletivo Tamborimbó, Senta Peia e Cia Trilhas da Amazônia.
Mestra Jesus: a voz feminina que vem do Marajó
Natural de Cachoeira do Arari, Maria de Jesus Rodrigues Barbosa cresceu cercada pelas manifestações culturais da ilha. Filha de Raimundo Ferreira Barbosa, mestre de folia, rezador de ladainhas, compositor e violonista, encontrou no pai sua primeira referência artística. Começou a participar das manifestações populares ainda na infância e, aos 12 anos, aproximou-se da percussão, iniciando um caminho que a levaria aos palcos como cantora, compositora e mestra.
Com mais de 40 composições, sua produção musical atravessa o carimbó, os xotes e o lundum marajoara. Nas letras, estão presentes a vida nos campos, os costumes, a religiosidade e as paisagens de seu território. Mas a caminhada também é marcada pelas dificuldades enfrentadas pelas mulheres para ocupar espaços historicamente dominados pelos homens.
"Como mulher preta, afro-religiosa, uma mulher da resistência da cultura popular, do território marajoara, como uma mulher também lésbica e mestra, eu me sinto lisonjeada com uma homenagem tão especial", afirma a artista, que compreende o reconhecimento como parte de uma história coletiva de permanência e luta.

Para ela, o crescimento da presença feminina no carimbó representa uma conquista que precisa ser fortalecida. "O maior recado que eu deixo para nossas manas é que não tenham medo de se libertar, de se empoderar, de se pertencer, porque o carimbó, pela sua história, já foi muito pertencido apenas pelo patriarcado. Hoje, a mulher está adentrando esses espaços da música", destaca.
A mestra também chama atenção para a dimensão de acolhimento dessa manifestação cultural. "O carimbó, além de ser uma gira de alegria, uma gira de cura, uma gira de magia, traz muitos benefícios para o corpo e para a mente. A mulher precisa desse acolhimento na gira do carimbó", acrescenta.
Sua produção mais recente, o álbum Respeito aos Orixás, reúne nove faixas autorais e foi realizado com recursos da Lei Paulo Gustavo. O trabalho aborda a ancestralidade afro-amazônica e a valorização das religiões de matriz africana e afro-indígena, colocando a música a serviço da memória e do enfrentamento ao apagamento dessas tradições.
"Respeito aos Orixás foi um grande sonho realizado, com muitas mãos trabalhando nesse álbum, inclusive mãos femininas. Ele vem trazer um recado sobre o apagamento das nossas religiões de matriz africana e afro-indígena dentro do nosso território", explica.
Mestre Zezinho Viana e a musicalidade dos campos marajoaras
Outro homenageado desta edição é José Luciano Frade Viana, o Mestre Zezinho Viana, compositor que construiu sua trajetória musical a partir das vivências e dos sons do Marajó. Suas canções retratam o cotidiano dos campos alagados, a lida dos vaqueiros, os rios e os sentimentos de quem vive na região.
Entre suas obras mais conhecidas está Invernada Marajoara, composição que atravessou gerações e ganhou espaço no repertório de diferentes grupos paraenses. Autor também de Saudade Louca, Zezinho faz parte de uma geração de artistas que ajudou a projetar a musicalidade da ilha para além de suas comunidades de origem.
Ao homenagear dois artistas marajoaras, o ACena Fest também coloca em evidência a contribuição da ilha para a diversidade do carimbó, expressão que assume diferentes sonoridades, formas de dançar e maneiras de contar histórias conforme o território onde é produzida.
Formação e continuidade da tradição
A quarta edição também contempla três oficinas gratuitas, com um total de 90 vagas. A primeira, dedicada às narrativas audiovisuais para projetos culturais, foi realizada em setembro. Já as vivências de percussão e dança estão previstas para ocorrer de 9 a 13 de novembro, na Escola Estadual Tenoné.
As atividades buscam aproximar novos participantes da história, dos instrumentos e das práticas corporais do carimbó, além de oferecer ferramentas de comunicação para artistas e agentes culturais.
Realizado pela Associação Cultural e Esportiva de Negros, Negras e Afrodescendentes da Amazônia (ACENA), reconhecida oficialmente como Pontão de Cultura em agosto de 2026, o festival foi selecionado pelo Edital nº 014/2025, de Fomento a Projetos Continuados de Ponto de Cultura, com patrocínio do Ministério da Cultura, por meio da Política Nacional de Cultura Viva e da Política Nacional Aldir Blanc (PNAB).
Com expectativa de reunir 1.200 pessoas presencialmente, o IV Carimbó ACena Fest aposta na circulação de diferentes gerações de artistas e na valorização daqueles que fazem do carimbó uma prática viva, presente nas comunidades, nos encontros e nos palcos da Amazônia.
Serviço
IV Carimbó ACena Fest – Festival de Carimbó de Belém
Quando: 17 e 18 de outubro de 2026 (sábado e domingo)
Horário: A partir das 15h
Local: Alameda 19, nº 14, Conjunto Maguari, bairro do Coqueiro, Belém – PA.
Entrada: Gratuita
Homenageados: Mestra Jesus e Mestre Zezinho Viana
Programação: Mostra musical, rodas de conversa, homenagens e apresentações de grupos de carimbó e dança
Realização: Pontão de Cultura ACena
Patrocínio: Ministério da Cultura, Política Nacional de Cultura Viva e Política Nacional Aldir Blanc (PNAB)


















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