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Mostra “Invertido”, de Henrique Montagne, revela o universo do artista queer da Amazônia

Invertido, de acordo com o dicionário, é aquilo “virado ao contrário, oposto ao que é natural, deslocado”. Usado popularmente para discriminar pessoas LGBTIQA+, o termo batiza a mostra de Henrique Montagne, que estreia na próxima quinta-feira (16) e segue cartaz até 19/12, na Casa das Artes, em Belém. Nela, o artista paraense abre seu universo queer, forjado pela cultura pop como ferramenta de sobrevivência e construção identitária, desde a infância, adolescência até a fase adulta vividas na periferia da Amazônia, e faz da memória particular um dispositivo para narrar a trajetória coletivo de corpos LGBTQIA+ na virada para o século 21.

Desenho, pintura, colagem, vídeo, objeto. O atravessamento entre diversas linguagens compõe a mostra, contemplada pelo Prêmio Branco de Melo, da Fundação Cultural do Pará, por meio do Governo do Estado via Secretaria de Cultura do Estado do Pará, com apoio da Maxcolor e Amazonique, e realização da Kuya.



Na exposição, Montagne torna a imagem um gatilho estético e político contra a normatividade “moral” do patriarcado — aquele mesmo que arregimentou ciências, religiões e filosofias para inventariar “desviados” ou “pervertidos”: os “invertidos”. Nas obras, o “quebra-cabeça” que constitui a psiqué queer tem como peças os Ursinhos Carinhosos, Castelo Rá-tim-bum, filmes como Homem-Aranha e bonecos Max Steel que se beijam.

"Henrique revisita os clichês sobre a masculinidade corrosiva enquanto, paradoxalmente, agencia essa mesma masculinidade como fetiche para certas camadas das chamadas sexualidades dissidentes. Inverte (ou perverte), na suposta inocência disneyficada da infância, os índices da injúria sobre gays e queers, instalando sua poética (e seus chifres profanos) num fio de navalha estendido (e tensionado) entre o kitsch e o pop, entre o 'bom' e o 'mau' gosto — pra fora e acima da manada, como diria Caetano", pontua o pesquisador e professor do Instituto de Ciências da Arte da UFPA, Afonso Medeiros, que assina os textos críticos da mostra ao lado de Álvaro Seixas, doutor em Linguagens Visuais e professor da Escola de Belas Artes da UFRJ.

Um dos destaques da cena contemporânea da Amazônia, Henrique Montagne integrou este mês uma exposição coletiva de arte queer em Portugal, e foi indicado, em 2022, ao prêmio PIPA, um dos mais importantes do Brasil. “Suaves Brutalidades”, a primeira exposição individual de Henrique, ocorreu em 2021. Desde então, suas obras já circularam por salões, prêmios e exposições no Brasil e no exterior, como o Thessaloniki Queer Arts Festival (Grécia, 2021) e Do Write [Right] To Me (EUA, 2021).



Em suas criações, Montagne traz o universo das vivências dos corpos masculinos LGBTQIA+, construindo narrativas ficcionais e auto ficcionais sobre os papéis de gênero, identidade, masculinidades dissidentes, relações homoafetivas, amor, solidão e cultura queer.

“Ser artista é como carregar imagens e informações que colecionamos desde a escola e que levamos de volta pra casa em mochilas pesadas, que continuam a caber muito, caminhando todo dia com o peso sob as costas”.

‘Criança viada’ na periferia da Amazônia

Como garoto gay nascido e criado no subúrbio de Belém, entre os bairros do Condor, Cremação e Jurunas, Henrique parte da própria história para acessar uma memória coletiva da juventude LGBTQIA+ a partir dos anos 2000. Alvo de homofobia e machismo, sofreu bullying e agressões (que aparecem em obras como "Retrato com a boca costurada"), mas encontrou na cultura pop o refúgio possível.



“Como uma criança periférica e da Amazônia, eu sobrevivia de sonhos através da TV, dos filmes da locadora que meu pai alugava, uma forma de escapar da minha realidade. Lembro de ver apenas crianças brancas na TV, nenhuma com uma cor mais ‘morena’ ou com minhas feições mais miscigenadas, elas estavam com suas famílias felizes e estáveis, reforçando um padrão sudestino de comercial de manteiga... Assisti aquele primeiro filme do Harry Potter mais de mil vezes, e sempre me perguntava: será que lá esse mundo é melhor do esse daqui?”.

O cinema, quadrinhos, desenhos animados, imagens de revista e jornal trazendo aspectos eróticos e homoafetivos entre homens e suas masculinidades, cantoras pop, atores globais, literatura: uma profusão interpretada sob a ótica de um garoto gay em formação, com as experiências atravessadas pela atmosfera hostil do mundo real, e que se volta ao universo lúdico da cultura pop, constitutiva de repertório imagético e formação identitária que irão influenciar na pesquisa de Henrique.

“Quando pensamos em pesquisa científica ou processo, só pensamos no campo acadêmico e teórico da nossa própria área, mas a música, o cinema, a arte são formas de atingirmos determinadas reflexões”, diz. “Leonilson cita Madonna como inspiração para desenvolvimento de suas obras e ficções, assim como outros trechos de músicas que ele escutava na rádio, cinema, propagandas de TV, literatura queer estrangeira que ainda era inacessível no Brasil, tudo é relatado em fitas deixadas após sua morte. Eu sou de outra geração, mas me vejo constantemente nesse processo artístico e imersivo que o Leonilson traz”, comenta Henrique, que cita ainda criadores como Cláudio Goulart, Rafael França e Hudinilson Jr como referências em sua arte queer multimídia.

Signos de Montagne: arte LGBTQIA+ sem arco-íris

Em preto e branco, o desenho aparece como protagonista em “Invertido”, e se desdobra: Henrique resgata o estilo de sua letra na pré-adolescência, e faz da pontuação, tão própria da escrita, um instrumento para traçar os desenhos em preto e branco.

“O pontilhismo traz a ideia do desenho como um texto constituído de pontos finais, que não precisa ser falado, mas pode ser lido. Para escrever um texto é preciso do traço, da linha e de pontuações. No meu desenho é a mesma coisa”, diz. “Na mostra, elevo a colagem a um cunho mais conceitual, unindo à escrita, que para mim é um ato de desenhar, pois eu tento refazer a minha escrita de quando eu era adolescente com imagens recortadas em estruturas retangulares”.

Outro aspecto agudo nas obras são os olhos vazios dos homens desenhados por Montagne e o uso de tons monocromáticos. “Foi uma fuga que se tornou assinatura estética, para desassociar a arte queer do sempre colorido da bandeira LGBTQIA, que hoje se tornou um clichê para grandes corporações usufruírem de modo neoliberal determinados nichos. Nossas histórias não são tão coloridas assim, existe muito amor, mas também dor”.

Serviço

Mostra “Invertido”, de Henrique Montagne, de 16 a 19 de novembro, na Galeria Ruy Meira, na Casa das Artes, localizada na R. Dom Alberto Gaudêncio Ramos, 236 – Nazaré, ao lado da Basílica. Visitação: 9h às 17h, de segunda a sexta-feira. Entrada franca.

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